
Enquanto nos abraçávamos,
existíamos antes, durante e
depois do futuro.
José Luís Peixoto
A Mulher de Negro
Imagem: Tomek Sikora/zefa/Corbis
A poesia não tem presente: ou é esperança ou saudade. Camilo Castelo Branco





Luis Miguel Nava / Paixão





Não. Não escrevo o que sou. Escrevo o que não sou. Sou pedra. Escrevo pássaro. Sou tristeza. Escrevo alegria. A poesia é sempre o reverso das coisas. Não se trata de mentira. É que nós somos corpos dilacerados – “oh, pedaço arrancado de mim!”
O corpo é o lugar onde moram as coisas amadas que nos foram tomadas, presença de ausências, daí a saudade, que é quando o corpo não está onde está... O poeta escreve para invocar essa coisa ausente. Toda poesia é um ato de feitiçaria cujo objetivo é tornar presente e real aquilo que está ausente e não tem realidade.



ontem chorei. por tudo que fomos. por tudo o que não conseguimos ser. por tudo que se perdeu. por termos nos perdido. pelo que queríamos que fosse e não foi. pela renúncia. por valores não dados. por erros cometidos. acertos não comemorados. palavras dissipadas. versos brancos. chorei pela guerra cotidiana. pelas tentativas de sobrevivência. pelos apelos de paz não atendidos. pelo amor derramado. pelo amor ofendido e aprisionado. pelo amor perdido. pelo amor. pelo respeito empoeirado em cima da estante. pelo carinho esquecido junto das cartas envelhecidas no guarda-roupa. pelos sonhos desafinados. estremecidos. adiados. pela culpa. toda a culpa. minha. sua. nossa culpa. por tudo que foi. e foi. e voou. e não volta mais pois que hoje é já outro dia. chorei. eu chorei. apronto agora os meus pés na estrada. ponho-me a caminhar sob sol e vento. eles secam as lágrimas. vou ali ser feliz e já volto. 