Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Existíamos



Enquanto nos abraçávamos,
existíamos antes, durante e
depois do futuro.

José Luís Peixoto
A Mulher de Negro

Imagem: Tomek Sikora/zefa/Corbis

Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

O avesso da verdade




Eu, porém, vos digo que
não jureis nunca a verdade,
porque a verdade nua e crua,
além de indecente, é dura de roer;

mas jurai sempre e a propósito
de tudo, porque os homens
foram feitos para crer antes
nos que juram falso do que
nos que não juram nada.

Se disseres que o sol acabou,
todos acenderão velas.


Machado de Assis

O Sermão do Diabo (1893)

Imagem: Andric Productions

Domingo, 21 de Junho de 2009

Para Sempre



Porque curiosamente, onde menos te encontro é onde tu exististe. Desprendeste-te donde estiveste e é em mim que mais me acontece tu estares. Mas nem sempre. Quantos dias se passam sem tu apareceres. E às vezes penso é bom que assim seja para eu aprender a estar só. Mas de outras vezes tu rompes-me pela vida dentro e eu quase sufoco da tua presença. Ouço-te dizer o meu nome e eu corro ao teu encontro e digo-te vai-te, vai-te embora. Por favor. E eu sinto-me logo tão infeliz. E digo-te não vás. Fica. Para sempre.

Vergilio Ferreira

Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

Sem nós na garganta



Se um dia secarem as palavras
do rio que só nós soubemos navegar
se acordarmos sós e despidos
das quimeras que já não podemos segurar
restará ainda a velha ponte
hirta e fria, abandonada,
sobre um leito desfeito, vazio,
e alguns versos soltos pelas margens
como as folhas de outono

de nós nada mais se ouvirá


Isabel Solano

Terça-feira, 16 de Junho de 2009

Por um triz


Um rapaz corre de mota numa estrada secundária. O vento bate-lhe no rosto. O rapaz fecha os olhos e abre os braços, como nos filmes, sentindo-se vivo e em plena comunhão com o universo. Não vê o camião irromper do cruzamento...

... Bum!... Morre feliz.

A felicidade é quase sempre uma irresponsabilidade. Somos felizes durante os breves instantes em que fechamos os olhos.



José Eduardo Agualusa - Aforismo Amoral I
Seis Aforismos Amorais
Revista "Pública"/2003
Imagem: Antonio Lopes

Quarta-feira, 10 de Junho de 2009

Linha tênue


Ficávamos no quarto, onde por vezes
o mar vinha irromper. É sem dúvida em dias de maior
paixão que pelo coração se chega à pele.
Não há então entre eles nenhum desnível.

Luis Miguel Nava / Paixão


Quinta-feira, 28 de Maio de 2009

Fica em mim


não te peço a direcção do vôo
mas fica em mim que somos aves medrosas e frágeis
e só o teu fogo redime o tempo contado

fica em mim. habita-me
e morrerei grávida de luz.

Isabel Coelho

Imagem: Narcis Virgiliu

Segunda-feira, 25 de Maio de 2009

Canção do amor demais


De ti fiz a harpa e a lira,
a guitarra.
Outra música não sei.

Albano Martins
O título deste post faz menção
a uma música de Tom e Vinícius.

Imagem: Steve Satushek

Quarta-feira, 20 de Maio de 2009

Resquícios

Com os meus amigos aprendi que o que dói às aves
Não é o serem atingidas, mas que,
Uma vez atingidas,
O caçador não repare na sua queda.

Daniel Faria / Pórtico
A casa dos cefeiros


Há aqueles que, além de ferirem, nem se preocupam em olhar para trás.
Ignoram de tal forma a dor do outro que ainda são capazes de
desferir um tiro de misericórdia com a arma da indiferença.


Imagem: Staffan Widstrand/Corbis

Sábado, 16 de Maio de 2009

Re(a)colhimento





Quando eu te contar a verdade,
não diga nada.
Qualquer boa vontade,
será a vontade errada.

Quando eu te disser a verdade,
cale-se! Apenas ouça!
Palavras de louça,
frases rendadas
feitas de espuma,
enfumaçadas,
letras que escorrem
como areia pelos dedos
ou a bruma de um amanhã bem cedo.

Quando eu te falar a verdade,
não tenha medo!
Fica comigo no teu ouvido,
me acolha o colo que nunca dei,
me salgue as lágrimas que não chorei,
escuta o dito que não direi
e tudo que sobrar devido.

E me recolha em concha,
na ponta dos teus dedos,
no seio dos teus medos.

E quando a ostra, como é das ostras,
novamente se fechar,
aceite a trouxa ali recolhida,
e me deixe na praia,
no quebra mar,
entre as espumas,
as brumas e o litoral.

Quando eu te calar a verdade,
não me queira mal!
E guarde, pouco de mim,
em um canto dos olhos teus.

Me leve calada, contida,
no brilho de teu olhar,
a verdade dita,
o fim,
restos do eu.

Resto que deixo,
no teu calar.
O resto é seixo,
para Iemanjá.


José Eduardo Teixeira Leite

Imagem: Altrendo Nature
daqui: Desejo Morte e Carambolas

Segunda-feira, 11 de Maio de 2009

Palavra líquida

A maioria das doenças que as pessoas
tem são poemas presos.
...
Pessoas as vezes adoecem da razão
De gostar de palavra presa
Palavra boa é palavra líquida
Escorrendo em estado de lágrima
...
lágrima é dor derretida.

Viviane Mosé
Imagem: Rozu

Quinta-feira, 7 de Maio de 2009

O avesso do avesso






















Não. Não escrevo o que sou. Escrevo o que não sou. Sou pedra. Escrevo pássaro. Sou tristeza. Escrevo alegria. A poesia é sempre o reverso das coisas. Não se trata de mentira. É que nós somos corpos dilacerados – “oh, pedaço arrancado de mim!”


O corpo é o lugar onde moram as coisas amadas que nos foram tomadas, presença de ausências, daí a saudade, que é quando o corpo não está onde está... O poeta escreve para invocar essa coisa ausente. Toda poesia é um ato de feitiçaria cujo objetivo é tornar presente e real aquilo que está ausente e não tem realidade.


Rubem Alves
Cenas de Vida
Imagem: Photodisc

Terça-feira, 5 de Maio de 2009

Decreto





Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,

que os girassóis terão direito

a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.


Thiago de Melo (mais sobre o poeta: aqui e aqui)
Estatuto dos Homens
(excerto) / Artigo III
(a Carlos Heitor Cony)
Imagem: Eddy Rischepa/Corbis

Segunda-feira, 27 de Abril de 2009

E se...





















E se te transformasses em pássaro?

Eu tranformava-me em céu, um vasto céu azul, com nuvens de fogo
nas pontas e sulcos de pétalas no centro; um fulgurante azul celeste
criado só para ver todo o fascínio do teu irromper.

E se te transformasses em água?
Eu transformava-me em fonte, ou talvez numa nascente, que a ânsia
de ver-te inundasse e nas paisagens que te vou escrevendo a minha
sede abrandasse.

E se te transformasses em estrela?
Uma imponente estrela de espuma com brilho de lava e gestos de
vento? Eu transformava-me em sombra, uma sombra incandescente,
onde tu: pássaro, água ou estrela, pudesses andar e na varanda de
minha espera, devagarinho, viesses pousar.

Victor Oliveira Mateus
(mais sobre o Victor)
In "Col. afectos: Amor", Labirinto.


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Desde que aportei pela primeira vez no blog A Dispersa Palavra, há quase um ano, tenho vontade de publicar uma poesia do meu amigo Victor (Oliveira Mateus), um poeta de versos exatos e peculiar sutileza. Pedi autorização, ele me acenou com um afetuoso "sim" e, aqui nas margens dos meus rios, compartilho com vocês a beleza de um de seus poemas.

Quinta-feira, 23 de Abril de 2009

Todo sentimento

Se fosse só sentir saudade.
Mas tem sempre algo mais.

Renato Russo / Angra dos Reis

Imagem: José Eduardo

Segunda-feira, 20 de Abril de 2009

Lembrança


Em quem pensar, agora, senão em ti?
Tu, que
me esvaziaste de coisas incertas,
e trouxeste a
manhã da minha noite.
...
ensinaste-me
a sermos dois;
e a ser contigo aquilo que sou,
até
sermos um apenas no amor que nos une,

contra a solidão que nos divide.


Nuno Júdice / Pedro, lembrando Inês
Imagem: Gosia Barta

Segunda-feira, 13 de Abril de 2009

Vou ali ser feliz e já volto

ontem chorei. por tudo que fomos. por tudo o que não conseguimos ser. por tudo que se perdeu. por termos nos perdido. pelo que queríamos que fosse e não foi. pela renúncia. por valores não dados. por erros cometidos. acertos não comemorados. palavras dissipadas. versos brancos. chorei pela guerra cotidiana. pelas tentativas de sobrevivência. pelos apelos de paz não atendidos. pelo amor derramado. pelo amor ofendido e aprisionado. pelo amor perdido. pelo amor. pelo respeito empoeirado em cima da estante. pelo carinho esquecido junto das cartas envelhecidas no guarda-roupa. pelos sonhos desafinados. estremecidos. adiados. pela culpa. toda a culpa. minha. sua. nossa culpa. por tudo que foi. e foi. e voou. e não volta mais pois que hoje é já outro dia. chorei. eu chorei. apronto agora os meus pés na estrada. ponho-me a caminhar sob sol e vento. eles secam as lágrimas. vou ali ser feliz e já volto.

Caio Fernando Abreu
Imagem: Ata Haluk Enacar

Quarta-feira, 8 de Abril de 2009

Pois há futuro em nossas janelas

Pois há futuro em nossas janelas,
Como em minha boca, um gosto ocre,
Me pinta um amor de aquarelas
Que faz de teu fel um resto doce.

Embriagado de ti, em ti me rendo
Ao teu de mim desconhecido
Nem te perdendo, nem te vendo,
Me entrego cego, reconhecido.

E busco ternuras de calendário,
Aos teus encantos, por fim, rendido.
De mim mesmo, meu adversário,
Me perco em ti, seu teu querido.

E busco o doce em tuas mãos,
Nelas me agarro, sobrevivente,
Como quem nega a própria razão
Na desmedida que nos faz gente.

E à tua pele dou a tensão
De ser nela a pele minha.
E aqui te faço minha perdição,
Meu sonho, minha alquimia.

José Eduardo Teixeira Leite

Imagem: Alvaro Ennes

Domingo, 5 de Abril de 2009

Revelação

Queres saber quem sou?
Eu sou o que te olha e espia para te recolher
e depois guardar num lugar que é só meu.

...
Eu sou o que mergulha as mãos na tua vida
para sentir a minha voltar.

Pedro Paixão
(Muito, Meu Amor-1996)
desconheço a autoria da imagem

Terça-feira, 31 de Março de 2009

O fruto de todas as estações



Há frutos que é preciso
acariciar
com os dedos com
a língua

e só depois
muito depois

se deixam morder.

Jorge Sousa Braga
Imagem: Rozu